O 7×1 completa um ano: foram sete gols contra!

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A maior vergonha do futebol brasileiro em toda sua história completa seu primeiro ano. Os ecos dessa derrota são quase imperceptíveis em ações que esperávamos sendo tomadas, muito em função de que cada um dos gols da Alemanha foram – ao contrário do que mostrou o placar do Mineirão – estúpidos gols contra:

1×0 – Perdemos a chance de reescrever a história do esporte a partir da CPI do futebol.

Em 1998, após denúncias de irregularidades na relação entre a CBF e a Nike, foi instaurada uma CPI na Câmara e outra no Senado.

O resultado da CPI pedia o indiciamento do então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e de outros 33 nomes, entre dirigentes, empresários, dentre outros envolvidos, além de escancarar erros administrativos nas entidades do esporte e alertar a necessidade de mudanças na maneira de fiscalizar e agir com o futebol.

Exceto a criação do Estatuto de Defesa ao Torcedor, nada foi feito.

Gol da Alemanha!

2×0 – Não moralizamos, ou profissionalizamos a arbitragem após o escândalo da Máfia do Apito. Pior, ressuscitamos o tapetão.

Em 2005, a Polícia Federal desarticulou uma quadrilha da qual fazia parte o árbitro FIFA, Edilson Pereira de Carvalho – além do também árbitro Paulo José Danelon. O então presidente do STJD, Luís Zveiter, decidiu anular e remarcar os 11 jogos arbitrados por Edílson.

Ao invés de se investigar a fundo, o escândalo foi visto como um caso isolado, enquanto arbitragens desastrosas e – numa quantidade assustadora de casos – duvidosas continuaram acontecendo, sem uma reforma na base da nossa arbitragem, antiquada e amadora.

Como se não bastasse, abriu-se o precedente e estendemos as disputas dentro de campo aos tribunais. O jogo deixou de acabar com o apito do árbitro e passou a se encerrar com a decisão do juiz.

Gol da Alemanha!

3×0 – Foi implementado o campeonato de pontos corridos, mas não a adequação ao calendário europeu, nem a divisão justa das cotas televisivas.

Quando se estabeleceu, em 2003, que o Campeonato Brasileiro não seria mais disputado no mata-mata, deu-se indício de que a organização profunda poderia acontecer no nosso futebol, mas não foi o que houve.

Ao invés de se acabar ou pelo menos fazer dos estaduais um torneio de pré-temporada para os grandes clubes, enquanto o calendário brasileiro teria que se alinhar ao europeu, o Brasil continuou jogando duas temporadas numa só. Sem contar que a divisão das cotas de TV – que já era injusta – ficou ainda  mais discrepante

Por exemplo, na atual divisão Flamengo e Corinthians faturarão R$ 170 milhões em 2016 enquanto Coritiba, Goiás, Sport, Vitória, Bahia e Atlético Paranaense apenas R$ 35 milhões. Outras equipes que subirem à Série A receberão ainda menos. Essa desproporcionalidade vai, num médio prazo, acabar com a competitividade daquela que é considerada a liga mais disputada do mundo. Sem contar que dificulta o investimento dos pequenos clubes em suas divisões de base.

Gol da Alemanha!

4×0 – Desde a Lei Pelé, a formação de atletas é incompleta e direcionada ao mercado externo, que não deseja jogadores genuinamente brasileiros.

E por falar em base, a Lei Pelé – de 24 de março de 1998 – deu ao empresário a chance de adentrar num universo que os clubes costumavam negligenciar. Hoje, qualquer pelada em campo de terra tem um empresário a espreita. Qualquer menino que chega na base de um clube já tem compromisso com um empresário que quer reaver seu investimento o quanto antes.

A consequência disso é a pressa em se formar jogadores não necessariamente para jogar no time de cima, mas para ser vendido a um clube maior no Brasil ou para o exterior, sem se importar se a formação daquele atleta está completa.

E nem falamos dos clubes, que com sua base tendo os seus direitos econômicos fatiados entre empresas e empresários, são obrigados a vender por pouco para não acabar no prejuízo.

Com isso cada geração sai da base com defeitos de fabricação, sem o selo de qualidade que fez do Brasil o único país pentacampeão mundial.

Gol da Alemanha!

5×0 – Não há um plano de formação de treinadores, que colecionam insucessos ao treinar clubes europeus.

Ao contrário de outros países da América do Sul, principalmente Argentina, o Brasil praticamente não exporta treinadores para a Europa. Engana-se quem trata isso como uma mera questão cultural: essa é a consequência de uma má formação.

Não existe um plano sério para a formação treinadores no Brasil. Os cursos ministrados aqui são quase todos caça-niqueis e defasados. Além disso, praticamente não se abre espaço para os acadêmicos – exceto e, em raríssimos casos, nas bases de alguns clubes grandes – no futebol brasileiro, apenas para os boleiros.

Mesmo que existisse esse plano, de nada adiantaria num país que não tem um regulamento para controlar a demissão de técnicos. O Brasil é o país que mais demite treinadores em todo o mundo, onde um treinador tem em média uma vida útil de 15 jogos, bem distante dos ingleses (80 jogos) e menos da metade dos nossos hermanos – de novo eles – que dão uma média de 34 jogos de vida aos seus treinadores.

Gol da Alemanha!

6×0 – O futebol brasileiro é refém da CBF e federações, que dependem dos clubes, que devem uma fortuna ao governo. Nada foi feito.

O futebol brasileiro é controlado pela CBF, que é alimentada pelas ditaduras exercidas nas federações estaduais, que são fomentadas pelos clubes, dos menores aos maiores. Só que há um detalhe básico: todos eles devem fortuna ao Governo.

Bastaria o Executivo traçar um plano de reestruturação e pressionar os seus devedores de forma dura, que consequentemente repassariam a pressão para cima, até chegar no topo, no gabinete do excelentíssimo presidente da CBF.

O problema é que o governo brasileiro está pouco se lixando. Sempre esteve. Durante os preparativos para a Copa do Mundo, então… nunca se ligou tão pouco para o futebol brasilero, apenas para as obras que fariam do Mundial algo executável.

Gol da Alemanha!

7×0 – Com raríssimas exceções, a imprensa esportiva brasileira tem um nível intelectual baixíssimo, é despolitizada e de postura provinciana.

E voltando a falar em formação, a dos nossos jornalistas não fica atrás dos treinadores e – mais recentemente – jogadores. No âmbito esportivo, poucos conseguem sair do óbvio e enxergar que para se realizar boas coberturas não basta fazer faculdade e gostar de futebol, mas se especializar, fazendo cursos -nacionais e internacionais – para treinadores e árbitros, além de compreender e estudar sobre o que faz toda essa roda girar: a política.

Mas o que nós vemos são coberturas superficiais, debates insípidos e voltados para que o torcedor burro continue burro, não questione ou saia da gaiola do fanatismo, apenas continue sendo mais um cliente acéfalo.

Os mandos e desmandos da CBF e federações só continuam exatamente pelo fato de que a imprensa brasileira, quando não é burra, é comprada. É vendida. Na ESPN Brasil se ensaiou durante alguns anos uma resistência a esse modelo, mas hoje não está tão diferente assim dos patéticos – dentre as canais por assinatura – Sportv e do Esporte Interativo (este último, um constante insulto à inteligência).

Gol da Alemanha!

7×1 – Sim, a nova CPI do futebol, após a prisão do José Maria Marín, pode ser comemorada como um gol!

A primeira CPI do futebol foi uma piada. Ao ponto do finado Eduardo Campos questionar Ronaldo quem deveria ser o marcador de Zidane. Essa nova, sob os olhares atentos da imprensa e – de forma muito mais eficiente – das redes sociais, poderá ter algum resultado real.

Não é bem um gol, é uma chance que se não for convertida ficará marcada na história do nosso futebol, tal como a bola na trave está marcada na pele do chileno Pinilla.

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